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Monday, March 05, 2007

I Dig it 028


Hoje é dia de Impressões Digitais - Compacto Duplo em sua vigésima-oitava edição, o qual trata quase que apenas de buarques.

LADO A: Um Buarque (o Francisco)
No lado A de Francisco Buarque de Holanda a música Fado Tropical de 1971 composta para a peça Calabar de Ruy Guerra.

Fado Tropical


Oh, musa do meu fado
Oh, minha mãe gentil
Te deixo consternado
No primeiro abril
Mas não sê tão ingrata
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal
"Sabe, no fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dose de lirismo...
(além da sífilis, é claro)*
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar
Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora..."
Com avencas na caatinga
Alecrins no canavial
Licores na moringa
Um vinho tropical
E a linda mulata
Com rendas do Alentejo
De quem numa bravata
Arrebato um beijo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal
"Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto
Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto
Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa
Mas o meu peito se desabotoa
E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa..."
Guitarras e sanfonas
Jasmins, coqueiros, fontes
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E o rio Amazonas
Que corre Trás-os-Montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial

* trecho original, vetado pela censura em 1971

HOMO SAPIENS - Parte I: Outro Buarque (o patriarca)
Em 2006 a mídia fez um estardalhaço danado - com justiça - para comemorar o aniversário de publicação de Grande Sertões - Veredas (Guimarães Rosa), mas esqueceram de comemorar os 70 anos do livro que nasceu para explicar este país: de Sérgio Buarque de Holanda, "Raízes do Brasil", que forma com Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre (de 1933), e Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Junior (de 1942), uma trilogia que fornece sólido substrato socio-filosófico para o aprofundamento de nossa identidade nacional.
Neste início do século XXI por entre os embates da violência, frustrações econômicas e ideológicas, resta ao pobre ser humano diante da complexidade deste universo, somente o questionamento.
Raízes do Brasil permanece um livro atual, imprescindível. Levado por Buarque de Holanda como projeto, para a Alemanha em 1929, amadureceu, pois como confessou Sérgio Buarque "era preciso explicar o Brasil aos alemães" e como "só quando você está no exterior é que se consegue ver seu próprio país corno um todo. E o Brasil não é fácil de se entender, é difícil".
No prefácio que escreveu em 1967 para a quinta edição de Raízes do Brasil, o pensador Antônio Cândido chama a atenção para o aspecto fundamental do pensamento de Buarque de Holanda: o uso da "metodologia dos contrários, que alarga e aprofunda a velha dicotomia da reflexão latino-americana". Uma nova visão é inaugurada por Buarque de Holanda em sua integração dos diversos aspectos históricos, sociológicos, econômicos, sociais. Investiga as conseqüências do que considera "o fato dominante e mais rico em conseqüências de nossa cultura" - o de que somos uns "desterrados". Pois instituições, idéias e formas de convívio foram transplantadas do continente europeu, mais particularmente da cultura ibérica, para o solo do novo continente, tendo sido nosso trabalho através do tempo "manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil".
A obra ainda declara que "a sociedade foi mal formada, nesta terra, desde as suas raízes". Estuda também a repulsa pelo trabalho regular e utilitário (pouco digno dos nobres de Espanha e dos fidalgos lusos) que permeia toda a nossa cultura e resulta em uma "incapacidade de organização" ou anarquia fundamental, que acaba por tolerar, ou mesmo exigir, formas autoritárias: "Em terra onde todos são barões, não é possível acordo coletivo durável, a não ser por uma força exterior respeitável e temida".
Entre espanhóis e portugueses há uma diferença fundamental no que se refere ao início da civilização urbana - enquanto o espanhol funda cidades em que parece predominar a linha reta e a ordem da razão, como se fossem um prolongamento estável da metrópole, o colono português norteado por uma política de feitoria, planta cidades irregulares, espontâneas, crescidas ao deus-dará.
Através de análises sistemáticas, Buarque de Holanda consegue elucidar boa parte do eu brasileiro (descobrimento, início rural da colonização, estabelecimento dos centros urbanos), aprofundando questões sobre a mentalidade, os costumes, as idiossincrasias dos colonizadores, e das gerações sucessivas, até chegar às características atuais: a nossa desorganização, emprenhada de paternalismos sócio-econômicos e do um "jeitinho brasileiro", uma doce-cordialidade, informalidade no trato, os compadrios e nepotismos, e a absoluta mistura de esferas entre o privado e o público. Polêmico é o capítulo sobre o "homem cordial" - tomado emprestado ao intelectual, Rui Ribeiro Couto (clique no Free Fles Box ao lado no arquivo Ribeiro Couto.pdf). Popularizou-se uma idéia, errônea, de que fora Sérgio Buarque o criador e o apologista dessa "cordialidade", que seria o grande legado do Brasil à sociedade global. Reconhecendo embora como virtudes a generosidade, o trato hospitaleiro, demonstrados pela população brasileira, ele faz questão de diferenciar essas atitudes das "boas maneiras" de civilidade de outros povos.
Sérgio Buarque de Holanda, paulistano (1902-1982), formado em direito (graças-aos-deuses nunca exerceu a advocacia) foi historiador, jornalista, escritor e professor universitário. "Raízes do Brasil" foi seu primeiro livro de seus 13 livros, a maioria, obras históricas.
Foi ainda diretor do Museu Paulista (o Museu do Ipiranga), fundador e diretor do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, vice-presidente do Museu de Arte Moderna de São Paulo, presidente da Associação Brasileira de Escritores, seção do Rio de Janeiro, co-fundador do Partido Socialista Brasileiro (PSB) em 1945 e do Partido dos Trabalhadores (PT), em 1980. Casou-se em 1936 com Maria Amélia Alvim, com a qual teve sete filhos, entre eles o compositor Chico Buarque de Holanda.
Com um pé na pauta e em meio a este ar meio mal parado destes dias de fúria na terra brazilis - da série "Poesia numa Hora dessas?!" de Chico Buarque:

Agora Falando Sério

Agora falando sério
Eu queria não cantar
A cantiga bonita
Que se acredita
Que o mal espanta
Dou um chute no lirismo
Um pega no cachorro
E um tiro no sabiá
Dou um fora no violino
Faço a mala e corro
Pra não ver a banda passar
Agora falando sério
Eu queria não mentir
Não queria enganar
Driblar, iludir
Tanto desencanto
E você que está me ouvindo
Quer saber o que está havendo
Com as flores do meu quintal?
O amor-perfeito, traindo
A sempre-viva, morrendo
E a rosa, cheirando mal
Agora falando sério
Preferia não falar
Nada que distraísse
O sono difícil
Como acalanto
Eu quero fazer silêncio
Um silêncio tão doente
Do vizinho reclamar
E chamar polícia e médico
E o síndico do meu prédio
Pedindo pra eu cantar
Agora falando sério
Eu queria não cantar
Falando sério
Agora falando sério
Preferia não falar
Falando sério


HOMO SAPIENS - Parte II: Terra Gelada
Era uma vez um país que tinha tudo, mas tudo mesmo, para não dar certo.
Este é um capítulo do próximo livro do economista Claudio de Moura Castro e nos dá uma idéia do que é a Islândia, terra que possui uma das melhores rendas per capita do mundo. E veja bem em clima subártico, com três horas de sol em janeiro, vulcões ativos, terremotos constantes, num chão de lava que tem 20% aptos para pastagens e 1% para a agricultura.
A Islândia já possuiu florestas - pelo menos um terço de seu território - mas elas foram usadas até o último toquinho. Sem cobertura vegetal, o solo se foi, enfim, um desastre ecológico milenar.
Foi um dos lugares mais pobre da Europa. E quase não dá para ver de onde saiu, em pouco mais de cem anos, a espantosa prosperidade atual, com o maior consumo de livros por habitante no planeta, nenhum pobre nas estatísticas e um único presídio com 70 detentos. Esta prosperidade - supõem-se - veio de duas riquezas mais ou menos invisíveis. O capital social herdado dos colonizadores vikings, que fincaram ali as raizes de um regime à prova de tirania. As leis chegaram à Islândia muito antes do governo; e a educação. No começo do segundo milênio, a literatura já era seu principal antídoto contra as agruras dos invernos longos e escuros. Lá, a alfabetização universal é obra do século 18.
Esta história se destaca como exemplo de que a exiguidade de recursos naturais, em si, não impedem que uma sociedade busque e atinja objetivos comuns.
Por fim, o segredo do sucesso de países que tinham tudo para ser inviáveis é o caminho escolhido por seu povo.


LADO B: De novo um Buarque (de novo, o Francisco)
Um carioca que esclareceu em algumas redondilhas que o seu pai era paulista, o avô era pernambucano, o bisavô mineiro, e o tataravô baiano.

Geni e o Zepelin

De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina
Atrás do tanque, no mato
É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Dos moleques do internato
E também vai amiúde
Com os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir
Joga pedra na Geni
Joga pedra na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni
Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante
Um enorme zepelim
Pairou sobre os edifícios
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geléia
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo - Mudei de idéia
- Quando vi nesta cidade
- Tanto horror e iniqüidade
- Resolvi tudo explodir
- Mas posso evitar o drama
- Se aquela formosa dama
- Esta noite me servir
Essa dama era Geni
Mas não pode ser Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni
Mas de fato, logo ela
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro
O guerreiro tão vistoso
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro
Acontece que a donzela
- e isso era segredo dela
Também tinha seus caprichos
E a deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e a cobre
Preferia amar com os bichos
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão
Vai com ele, vai Geni
Vai com ele, vai Geni
Você pode nos salvar
Você vai nos redimir
Você dá pra qualquer um
Bendita Geni
Foram tantos os pedidos
Tão sinceros, tão sentidos
Que ela dominou seu asco
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco
Ele fez tanta sujeira
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir
Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni


BackGround - A Arte de Nenê (baterista, compositor e arranjador) - Peças: Garrote; Maracatu pra Tu; Outubro em Paris e Prezado Amigo Zeca. Roda Viva de Chico Buarque) e Bjork interpretando I've Seem it All e New World (ambas da trilha do filme Dance in the Dark).

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